FeLV no Brasil: o que muda na testagem e vacinação de gatos com o posicionamento da ABFel 2026?


A Academia Brasileira de Clínicos de Felinos (ABFel) publicou um posicionamento sobre a prevenção da infecção pelo vírus da leucemia felina (FeLV) no Brasil, trazendo uma orientação importante para a rotina veterinária: a testagem continua recomendada, mas sua indisponibilidade não deve impedir, isoladamente, a vacinação de gatos clinicamente saudáveis.

A recomendação amplia a discussão sobre prevenção ao considerar não apenas o cenário epidemiológico brasileiro, mas também as dificuldades encontradas na prática clínica, como limitações financeiras, indisponibilidade de testes e recusa do responsável.

Para o médico-veterinário, a atualização exige uma abordagem integrada entre avaliação clínica, diagnóstico, imunização, comunicação com o responsável e prevenção da transmissão.

Por que a prevenção da FeLV precisa ser discutida no Brasil?

A infecção pelo vírus da leucemia felina permanece relevante para a medicina felina devido ao seu potencial de causar imunossupressão, alterações hematológicas, neoplasias e outras complicações sistêmicas.

Além das consequências individuais, a transmissão entre gatos representa um desafio para ambientes com múltiplos animais, abrigos, colônias e domicílios nos quais convivem gatos com diferentes condições infecciosas.

O posicionamento da ABFel considera a relevância clínica e a elevada prevalência da infecção no Brasil para recomendar a testagem e a vacinação de todos os gatos.

Essa recomendação brasileira deve ser distinguida das diretrizes internacionais que individualizam determinadas indicações vacinais conforme idade, estilo de vida e risco de exposição.

A principal atualização: testar continua sendo recomendado, mas não deve ser uma barreira absoluta à vacinação

Historicamente, a testagem pré-vacinal tem sido enfatizada para identificar gatos infectados e orientar adequadamente as medidas preventivas.

Essa recomendação permanece válida.

Entretanto, o posicionamento da ABFel 2026 reconhece que, em determinadas circunstâncias, a testagem pode não ser realizada.

Nesses casos, a ausência do exame não deve impedir, isoladamente, a vacinação de gatos clinicamente saudáveis, desde que o responsável seja esclarecido e concorde com a conduta.

É importante compreender que essa orientação não elimina a necessidade de diagnóstico. Ela estabelece uma alternativa preventiva para situações em que a testagem prévia é inviável.

A testagem deverá continuar sendo recomendada e realizada assim que possível.

Como aplicar a recomendação durante a consulta?

A decisão deve começar pela avaliação clínica individual.

Antes da vacinação, o médico-veterinário deve investigar o histórico vacinal, os resultados de testes anteriores, a possibilidade de exposição recente, o acesso ao ambiente externo e a convivência com outros gatos.

O exame físico deve identificar condições clínicas que possam justificar investigação adicional ou adiamento da vacinação.

A partir dessa avaliação, três situações merecem atenção.

Decisão clínica: três cenários

01 - Teste disponível e resultado negativo
Avaliar a possibilidade de exposição recente, indicar a vacinação conforme o protocolo aplicável e considerar nova testagem quando houver suspeita de infecção ainda não detectável.

02 - Teste indisponível
Confirmar que o paciente está clinicamente saudável, esclarecer o responsável, obter consentimento e prosseguir com a vacinação. Recomendar a testagem assim que possível.

03 - Resultado positivo ou discordante
Investigar o status infeccioso por meio de avaliação clínica e testes complementares. A vacina contra FeLV não possui finalidade terapêutica e não modifica a evolução de uma infecção já estabelecida.

A classificação da infecção não deve depender indiscriminadamente de um único resultado laboratorial. A interpretação pode exigir associação entre detecção do antígeno p27, PCR para DNA proviral, histórico de exposição e acompanhamento temporal, conforme as diretrizes diagnósticas.

O consentimento informado passa a ter papel central na documentação clínica

A vacinação sem testagem prévia exige comunicação clara entre médico-veterinário e responsável.

É necessário esclarecer que o animal pode apresentar infecção preexistente, mesmo sem manifestações clínicas, e que a vacinação não possui efeito terapêutico nesses casos.

Também é importante explicar que a ausência de testagem não permite confirmar o status FeLV-negativo e que a vacinação não garante proteção absoluta.

Do ponto de vista da documentação clínica, recomenda-se registrar o motivo da não realização do exame, as orientações prestadas, a avaliação do paciente, o consentimento do responsável e a recomendação de testagem posterior.

O registro deve incluir os dados usuais de rastreabilidade vacinal, como fabricante, lote, validade, data, local de aplicação e profissional responsável.

A documentação não substitui a decisão clínica, mas permite demonstrar os fundamentos da conduta adotada e as informações compartilhadas com o responsável.

A vacinação não substitui o diagnóstico nem o manejo sanitário

Um ponto essencial do posicionamento brasileiro é que a vacinação deve integrar um programa mais amplo de prevenção.

A separação física entre gatos infectados e suscetíveis continua necessária. A vacinação não deve ser interpretada como autorização para permitir o livre contato entre esses animais.

Em domicílios com múltiplos gatos, abrigos e estabelecimentos veterinários, o manejo deve considerar o status infeccioso, a introdução de novos animais e a possibilidade de exposição.

Recomenda-se manter os gatos sem acesso livre ao ambiente externo e evitar contato com animais de status desconhecido.

Para gatos infectados, o acompanhamento veterinário periódico e a adoção de medidas que reduzam a transmissão permanecem fundamentais.

A proteção depende da associação entre vacinação, diagnóstico e controle da exposição.

E quanto aos esquemas de vacinação?

O posicionamento da ABFel 2026 não estabelece um novo protocolo de doses, intervalos ou revacinação.

Portanto, a primovacinação e os reforços devem continuar fundamentados nas diretrizes vacinais aplicáveis, nas características do produto registrado e na avaliação individual do paciente.

É importante não confundir a ampliação da recomendação de vacinação com uma alteração automática dos esquemas vacinais.

Da mesma forma, o posicionamento não substitui as diretrizes específicas para interpretação dos testes diagnósticos ou manejo clínico de gatos infectados.

O que muda na organização dos serviços veterinários?

A incorporação do posicionamento da ABFel representa uma oportunidade para revisar protocolos institucionais de vacinação.

Clínicas, hospitais e serviços de atendimento domiciliar devem estabelecer fluxos claros para situações em que a testagem pré-vacinal não possa ser realizada.

A padronização deve contemplar avaliação clínica, oferta do exame, orientação ao responsável, consentimento informado, vacinação e recomendação de testagem posterior.

Esse processo reduz a possibilidade de condutas contraditórias entre diferentes profissionais e favorece a continuidade do acompanhamento.

Também permite que o prontuário reúna informações relevantes para futuras decisões, especialmente quando o gato é atendido por equipes diferentes.

VetGuide: evidência científica aplicada à decisão clínica

A atualização das recomendações sobre FeLV reforça a importância de transformar consensos científicos em ferramentas práticas para o atendimento.

No aplicativo VetGuide, os conteúdos sobre vacinação, diagnóstico e prevenção da leucemia felina estão sendo alinhados ao posicionamento da ABFel 2026.

Entre os recursos desenvolvidos para apoiar essa atualização estão o cartão rápido de decisão clínica sobre testagem e vacinação no Brasil e um modelo de termo de consentimento informado para situações nas quais a testagem prévia não puder ser realizada.

O objetivo é facilitar o acesso à informação científica e apoiar a documentação e a tomada de decisão, preservando a autonomia e a responsabilidade do médico-veterinário.

Conheça o VetGuide: www.vetguide.com.br .

Transforme a atualização científica em decisão clínica.

Acesse o VetGuide e consulte o cartão rápido de decisão sobre testagem e vacinação contra FeLV, além do modelo de termo de consentimento informado para situações em que a testagem pré-vacinal não estiver disponível.

Na sua rotina clínica, qual é a principal dificuldade para realizar a testagem pré-vacinal contra FeLV: custo, disponibilidade do teste ou adesão do responsável? Compartilhe sua experiência nos comentários.

Compartilhe nos comentários os desafios encontrados na sua rotina clínica e como sua equipe organiza a orientação e o acompanhamento desses pacientes.

Texto: Simone Freitas | Responsável técnica: Dra. Simone Freitas — CRMV-BA 1771

Referências

ACADEMIA BRASILEIRA DE CLÍNICOS DE FELINOS (ABFel). Posicionamento da ABFel sobre a prevenção da infecção pelo vírus da leucemia felina (FeLV) no Brasil – 2026. Brasil: ABFel, 2026. Disponível em: Publicações oficiais da ABFel . Acesso em: 21 set. 2026.

LITTLE, S. et al. 2020 AAFP feline retrovirus testing and management guidelines. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 22, n. 1, p. 5-30, 2020. DOI: 10.1177/1098612X19895940 .

HOFMANN-LEHMANN, R.; HARTMANN, K. Feline leukaemia virus infection: a practical approach to diagnosis. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 22, n. 9, p. 831-846, 2020. DOI: 10.1177/1098612X20941785 .

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato