Atualizado em 28 de outubro de 2026 | Leitura estimada: 6 minutos
A confirmação de três focos da doença de Newcastle em estabelecimentos avícolas de Santa Catarina, entre os dias 18 e 27 de outubro de 2026, reacendeu o alerta epidemiológico para uma das enfermidades virais de maior importância sanitária e econômica na avicultura mundial.
Os registros ocorreram nos municípios de Nova Itaberaba, Coronel Freitas e Nova Erechim, no Oeste catarinense, uma região estratégica para a produção brasileira de proteína animal. Segundo os comunicados oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), os novos focos foram identificados durante ações de vigilância epidemiológica intensificada, dentro da área de emergência sanitária estabelecida após a primeira ocorrência.
Mais do que um desafio para os produtores, o episódio evidencia a importância da Medicina Veterinária na interface entre sanidade animal, saúde pública, segurança dos alimentos e estabilidade das cadeias produtivas.
A resposta à doença exige diagnóstico precoce, rastreabilidade, biosseguridade e atuação coordenada dos serviços veterinários oficiais e privados. Essas medidas são fundamentais para conter a circulação viral, preservar a produção avícola e manter a confiança nos sistemas brasileiros de vigilância e inspeção sanitária.
O que está acontecendo em Santa Catarina?
O primeiro foco foi confirmado pelo Mapa em 18 de outubro de 2026, em uma criação comercial de perus de corte localizada em Nova Itaberaba. O diagnóstico foi realizado pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), laboratório reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como referência internacional para a enfermidade.
Após a confirmação, o estabelecimento foi interditado e submetido às medidas previstas no Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle.
Em 24 de outubro, um segundo foco foi confirmado em Coronel Freitas. Três dias depois, o Mapa anunciou a terceira ocorrência, em Nova Erechim. Ambos os estabelecimentos estavam dentro da área de restrição sanitária previamente delimitada.
Cronologia dos focos confirmados
- 18 de outubro — Nova Itaberaba
Confirmação do primeiro foco em estabelecimento comercial de perus de corte. - 24 de outubro — Coronel Freitas
Segundo foco identificado durante a vigilância intensificada na área de restrição. - 27 de outubro — Nova Erechim
Terceiro foco confirmado em outro estabelecimento avícola, também dentro da área de emergência.
A Portaria Mapa nº 962/2026 declarou estado de emergência zoossanitária por 60 dias em Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim.
Entre as medidas implementadas estão o despovoamento sanitário dos estabelecimentos afetados, a limpeza e desinfecção das instalações, a investigação epidemiológica e o controle do trânsito de aves e materiais potencialmente contaminados.
Conforme a atualização oficial de 27 de outubro, o estabelecimento de Nova Itaberaba encontrava-se em vazio sanitário, enquanto as operações de limpeza e desinfecção prosseguiam em Coronel Freitas.
O que é a doença de Newcastle e por que representa um risco epidemiológico?
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral altamente contagiosa, causada por cepas virulentas do paramixovírus aviário tipo 1 (APMV-1), atualmente classificado na espécie Avian orthoavulavirus 1.
O agente pode infectar diferentes espécies de aves domésticas e silvestres. Sua importância epidemiológica está relacionada à capacidade de disseminação entre plantéis, à variabilidade de apresentação clínica e ao potencial de provocar mortalidade elevada, especialmente em populações suscetíveis.
As manifestações clínicas podem incluir alterações respiratórias, sinais neurológicos, diarreia, redução do desempenho produtivo e mortalidade súbita. Entretanto, a ausência de sinais clínicos evidentes não exclui a infecção.
A transmissão ocorre principalmente pelo contato com aves infectadas e suas secreções e excreções, além da exposição a aerossóis, equipamentos, veículos, roupas e outros materiais contaminados.
Por que os novos focos merecem atenção?
O principal risco está na possibilidade de disseminação do agente entre estabelecimentos avícolas e populações de aves suscetíveis, especialmente quando existem falhas de biosseguridade ou movimentações não controladas.
A identificação de focos adicionais dentro da área de emergência demonstra a importância da vigilância ativa para localizar estabelecimentos infectados e interromper possíveis cadeias de transmissão.
O Mapa também informou a identificação de PPMV-1 em pombos fora da área de emergência, sem relação epidemiológica demonstrada com os focos comerciais. Segundo os critérios da OMSA, essa ocorrência em pombos não foi classificada como um novo foco de doença de Newcastle. A distinção é importante para evitar interpretações equivocadas dos dados epidemiológicos.
A situação exige monitoramento contínuo, mas a confirmação de novos focos não significa, por si só, disseminação generalizada da enfermidade pelo estado ou pelo país.
Vigilância epidemiológica: a principal estratégia para interromper a transmissão
A resposta à emergência sanitária em Santa Catarina demonstra como a integração entre vigilância ativa, diagnóstico laboratorial e medidas de biosseguridade pode contribuir para a identificação precoce de focos.
De acordo com a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), entre 20 e 26 de outubro foram vistoriadas 133 propriedades comerciais e 551 propriedades de subsistência. A operação também contou com quatro barreiras sanitárias para fiscalização e desinfecção de veículos.
O terceiro foco, em Nova Erechim, envolveu aproximadamente 9.600 aves sem manifestações clínicas aparentes, evidenciando a importância da vigilância laboratorial mesmo na ausência de sinais sugestivos da enfermidade.
Nesse contexto, a vigilância não deve ser compreendida apenas como uma ferramenta de identificação de animais doentes, mas como um sistema permanente de avaliação de riscos, investigação epidemiológica e prevenção da disseminação de agentes infecciosos.
O papel da Medicina Veterinária na saúde pública e na segurança alimentar
A ocorrência da doença de Newcastle reforça a importância estratégica dos médicos-veterinários na proteção da saúde coletiva.
Embora a enfermidade seja predominantemente uma ameaça à sanidade avícola, sua repercussão ultrapassa os limites das propriedades rurais, envolvendo a segurança dos alimentos, a continuidade do abastecimento, a saúde ocupacional e as relações comerciais internacionais.
Saúde Única: integração entre animais, pessoas e ambiente
Sob a perspectiva da Saúde Única (One Health), a atuação veterinária envolve a compreensão das interações entre populações animais, agentes infecciosos, ambiente de produção e exposição humana.
A doença de Newcastle apresenta baixo risco para seres humanos. Entretanto, pessoas expostas diretamente a aves infectadas podem desenvolver manifestações como conjuntivite, geralmente autolimitada.
Esse risco ocupacional reforça a necessidade de equipamentos de proteção individual, higiene adequada e protocolos de biossegurança para trabalhadores de granjas, profissionais de laboratório e equipes envolvidas nas operações sanitárias.
Segurança dos alimentos e segurança alimentar: conceitos complementares
A doença de Newcastle permite compreender duas dimensões fundamentais da atuação veterinária.
- A segurança dos alimentos está relacionada à prevenção de perigos que possam comprometer a saúde dos consumidores. Nesse aspecto, o Mapa e a Cidasc esclarecem que a carne de aves e os ovos provenientes de estabelecimentos submetidos à inspeção sanitária oficial permanecem seguros para consumo. Não há indicação de transmissão alimentar da doença nas condições reconhecidas pelas autoridades sanitárias.
- A segurança alimentar, por sua vez, envolve a disponibilidade e o acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas.
Uma emergência zoossanitária pode comprometer essa dimensão ao provocar perdas de plantéis, interrupção de atividades produtivas, restrições de movimentação, custos adicionais e dificuldades comerciais.
Assim, controlar uma enfermidade avícola não significa apenas proteger os animais, mas também contribuir para a continuidade da oferta de proteína animal à população.
Impactos econômicos e sanitários sobre a cadeia produtiva
A relevância internacional da doença de Newcastle está associada ao seu potencial de comprometer o comércio de produtos avícolas.
Após a confirmação do primeiro foco catarinense, o Mapa comunicou restrições temporárias impostas por parceiros comerciais, incluindo México, China e Chile, com diferentes abrangências territoriais e categorias de produtos.
Essas medidas demonstram como um evento sanitário localizado pode produzir consequências para exportadores, produtores integrados, indústrias e demais participantes da cadeia avícola.
A manutenção de sistemas de vigilância robustos, certificação sanitária, rastreabilidade e transparência na comunicação internacional é, portanto, essencial para a sustentabilidade da avicultura brasileira.
Médico-veterinário: profissional essencial na prevenção, identificação e controle
A atuação do médico-veterinário abrange diferentes etapas da resposta à doença de Newcastle, desde a orientação aos produtores até a execução de políticas públicas de defesa sanitária animal.
Entre suas principais responsabilidades estão:
- Vigilância e diagnóstico: reconhecer alterações clínicas e epidemiológicas, comunicar suspeitas e colaborar com a investigação e a coleta oficial de amostras.
- Biosseguridade: implementar e supervisionar protocolos de controle de acesso, higienização, desinfecção, manejo de resíduos e prevenção do contato com aves silvestres.
- Gestão sanitária: acompanhar indicadores zootécnicos, mortalidade, vacinação e registros sanitários, identificando alterações que possam indicar risco.
- Educação sanitária: capacitar trabalhadores e orientar produtores sobre prevenção, notificação e medidas de contenção.
- Inspeção e saúde pública: atuar na fiscalização, inspeção de produtos de origem animal e comunicação de riscos à população.
A notificação imediata de casos suspeitos é obrigatória e deve ser encaminhada ao Serviço Veterinário Oficial. A investigação, a confirmação diagnóstica e a definição das medidas sanitárias oficiais seguem os protocolos estabelecidos pelo Mapa.
O que os produtores e responsáveis técnicos devem fazer?
Em situações de alerta epidemiológico, a prevenção depende da aplicação consistente das medidas de biosseguridade e da comunicação rápida de suspeitas.
Os responsáveis técnicos devem reforçar o monitoramento dos plantéis, especialmente diante de mortalidade súbita, alterações respiratórias, sinais neurológicos, redução no consumo de água e ração ou queda na produção de ovos.
Também é fundamental restringir o acesso de pessoas e veículos, evitar contato entre aves domésticas e silvestres, assegurar a limpeza e desinfecção de equipamentos e cumprir as regras sanitárias de movimentação.
Na presença de suspeita, os animais devem ser isolados, a movimentação suspensa e o Serviço Veterinário Oficial comunicado imediatamente. Não se deve realizar movimentação de aves, produtos ou materiais potencialmente contaminados sem autorização oficial.
Notificação de suspeitas
A comunicação pode ser realizada diretamente à unidade veterinária oficial da região ou pelo sistema eletrônico do Ministério da Agricultura e Pecuária.
A sanidade animal como compromisso coletivo
Os focos da doença de Newcastle em Santa Catarina representam um alerta sobre a necessidade de manter a vigilância epidemiológica como atividade permanente, e não apenas como resposta a emergências.
O episódio evidencia a importância da articulação entre produtores, médicos-veterinários, laboratórios, instituições de pesquisa, serviços oficiais e indústria avícola.
A capacidade de identificar precocemente um agente infeccioso, comunicar sua ocorrência e executar medidas de contenção determina não apenas a eficiência do controle sanitário, mas também a proteção da produção de alimentos e da economia.
A Medicina Veterinária ocupa uma posição central nesse processo. Ao integrar conhecimento científico, prevenção de doenças, fiscalização sanitária e gestão de riscos, seus profissionais contribuem diretamente para a saúde pública, a segurança alimentar e a sustentabilidade dos sistemas de produção animal.
Mais do que responder aos focos, o desafio é fortalecer continuamente a cultura de biosseguridade, a educação sanitária e os sistemas de vigilância capazes de antecipar e reduzir os impactos de futuras emergências.
Fontes oficiais e referências
1. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa confirma foco de doença de Newcastle em estabelecimento avícola em Santa Catarina. Brasília, 19 out. 2026. Disponível em: Comunicado oficial do Mapa.
2. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa atualiza ações de resposta ao foco da doença de Newcastle em Santa Catarina. Brasília, 22 out. 2026. Disponível em: Atualização das medidas sanitárias.
3. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa confirma foco da doença de Newcastle em Nova Erechim (SC). Brasília, 27 out. 2026. Disponível em: Confirmação do terceiro foco.
4. SANTA CATARINA. Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina. Newcastle: força-tarefa amplia vigilância sanitária no Oeste catarinense. Florianópolis, 27 out. 2026. Disponível em: Boletim da Cidasc.
5. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Doença de Newcastle (DNC). Brasília: Mapa. Disponível em: Programa Nacional de Sanidade Avícola — Doença de Newcastle.
6. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Ficha técnica: doença de Newcastle. Brasília, fev. 2026. Disponível em: Ficha técnica oficial em PDF.
Informações epidemiológicas verificadas até 28 de outubro de 2026. Como a investigação permanece em andamento, o número de focos e as medidas sanitárias podem ser atualizados pelas autoridades oficiais.

