Atualização sobre o Controle da Raiva: o caminho para 2030 (WSAVA 2025) — e o que os dados de 2025 reforçam no Brasil


Atualizado em janeiro de 2026

As discussões da WSAVA 2025 recolocaram a raiva no centro da agenda de Saúde Única (One Health): uma zoonose quase sempre fatal quando a doença se estabelece, mas prevenível com vacinação animal, vigilância e acesso rápido à profilaxia pós-exposição (PEP). No Brasil, o cenário de 2025 reforçou esse alerta com registros em diferentes espécies — principalmente ligados ao ciclo silvestre, com destaque para morcegos.


O que a WSAVA 2025 destacou: “Zero by 30” exige ação coordenada

A meta global conhecida como Zero by 30 propõe zerar mortes humanas por raiva mediada por cães até 2030, por meio de uma estratégia integrada entre saúde humana, animal e políticas públicas.

Na palestra Atualização sobre o Controle da Raiva: O Caminho para 2030”, foram enfatizados pontos que conversam diretamente com a realidade de países com grande diversidade territorial e desigualdade de acesso:

  • Vacinação antirrábica com foco territorial: Samuel Derso Tezera ressaltou desafios de vacinação em áreas rurais, onde acesso a vacina e serviços é limitado (lição importante para regiões remotas em qualquer continente).

  • Diferenças de exposição e custo de tratamento: Peter Karczmar pontuou contrastes entre países, incluindo o peso econômico da profilaxia pós-exposição (PEP) em contextos de alto custo.

  • PEP intradérmica como estratégia de economia e escala: a OMS/WHO recomenda e promove esquemas intradérmicos por reduzirem o uso de vacina em 60–80%, ajudando a baixar custos e mitigar escassez.

  • One Health com componente ambiental: Devon Dublin reforçou que urbanização e degradação de habitats influenciam o risco de zoonoses, e que a estratégia de controle precisa incluir esse eixo ambiental.

  • Vacinação em massa e medicina de abrigos: ações em larga escala (incluindo populações vulneráveis/errantes) dependem de compromisso político, logística e comunicação com a população.

Observação editorial: os nomes acima constam como membros do WSAVA One Health Committee, o que contextualiza o recorte One Health da discussão.

Brasil: avanços sólidos no ciclo urbano — mas o risco não desapareceu

O Brasil acumula conquistas importantes: em setembro de 2025, o Ministério da Saúde informou que o país completou 10 anos sem casos de raiva humana transmitida por cães, preparando dossiê para validação internacional.

Ao mesmo tempo, o próprio Ministério reforça um ponto essencial para comunicação correta do risco:

  • Raiva canina” (variante típica de cães) é diferente de “raiva em cães”, quando cães adoecem por variantes silvestres (morcegos/raposas etc.).

Em 2025, a circulação silvestre — especialmente com morcegos — continuou sendo a grande preocupação epidemiológica.

O que os números de 2025 sinalizaram

São Paulo: morcegos como reservatórios relevantes

Segundo publicação institucional do CRMV-SP, o estado registrou em 2025 um total de 125 animais positivos, com predominância de morcegos não hematófagos (72), além de bovinos (27) e equinos (19), entre outras espécies.

Bahia: registros ao longo do ano e alerta no fim de 2025

Na Bahia, reportagens e comunicados apontaram 93 casos de raiva animal registrados em 2025 (janeiro–novembro) e destacaram ações de alerta e bloqueio após confirmação de caso canino em Salvador.

Materiais oficiais estaduais também registraram dezenas de casos ao longo de 2025, reforçando a necessidade de vigilância contínua. A ADAB enfatizou a importância de vacinação e notificação, citando registros em herbívoros no recorte 2024–2025.

Por que isso importa para 2030: onde focar

  1. Cobertura vacinal sustentada em cães e gatos
    Mesmo com redução drástica da raiva canina, a prevenção precisa permanecer consistente para evitar reintroduções e reduzir risco de spillover no ambiente urbano e periurbano.

  2. Vigilância e resposta rápida ao ciclo silvestre (morcegos e raposas)
    O padrão de 2025 reforça que morcegos seguem centrais no Brasil, exigindo educação pública, notificação e fluxos laboratoriais e assistenciais eficientes.

  3. Acesso e racionalidade na PEP
    Esquemas intradérmicos, quando implementados com protocolo adequado, podem ampliar acesso e reduzir custo e consumo de vacinas.-  pauta especialmente relevante em cenários de recursos limitados. 

  4. One Health com ambiente e gestão de populações errantes
    A meta “Zero by 30” depende da coordenação entre setores, comunicação de risco e soluções viáveis para territórios vulneráveis.

Conduta rápida em exposição suspeita

Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de autoridades sanitárias locais.

A raiva é prevenível — e o caminho para 2030 passa por vacinação, vigilância ativa e integração One Health.

  • Profissionais: revisem protocolos internos de triagem neurológica e notificação.
  • Responsáveis pelos animais: mantenham a vacinação em dia e evitem contato com fauna silvestre, especialmente morcegos.

Texto por: Simone Freitas
Responsável técnica: Dra. Simone Freitas CRMV- BA 1771

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