Avaliação rápida de fraturas no plantão em 6 passos


Como estabilizar o paciente, escolher a melhor fixação e evitar armadilhas no trauma ortopédico

Quando chega um cão ou gato com fratura ao pronto-atendimento, é muito tentador “olhar direto para o raio-X” e começar a pensar em placas, pinos e parafusos. Mas a palestra Fracture Assessment – How Broken Is It? no WSAVA 2025 reforçou um ponto crucial: no plantão, o foco inicial não é o osso, é o paciente. A seguir, um roteiro em 6 passos que você pode aplicar na rotina e depois aprofundar com os conteúdos de fraturas, tipos de fraturas e trauma do VetGuide.

  1. Primeiro, salve o paciente – depois o osso

Comece sempre pelo ABCD do trauma: via aérea, respiração, circulação e avaliação neurológica rápida. Corrija hipóxia, choque e hemorragia antes de se preocupar com o alinhamento da fratura.
Opioides são os analgésicos de escolha na fase aguda (metadona, morfina, fentanil, por exemplo) e podem ser usados com segurança em pacientes instáveis, desde que monitorizados. A manipulação do membro fraturado deve ser mínima até que o animal esteja hemodinamicamente mais estável.

2. Examine o membro com olhar de urgência

Com o paciente estabilizado, avalie o membro: há fratura fechada ou exposta? A pele está íntegra ou existe comunicação com o meio externo? A fratura aberta deve ser tratada como potencialmente contaminada, seguindo os graus de gravidade (ferida pequena com mínima contaminação até grandes perdas de tecido e cominuição importante).

Observação: não esqueça da avaliação neurovascular distal: perfusão, sensibilidade e motricidade. Alterações importantes podem indicar necessidade de intervenção cirúrgica mais precoce. Em filhotes, suspeite de fraturas de placa de crescimento sempre que a região metafisária/epifisária estiver envolvida.

3. Use o RX para responder: dá para reconstruir ou não?

Na radiografia (sempre em pelo menos duas projeções) responda três perguntas:

  • Onde está a fratura (diáfise, metáfise, epífise, intra-articular)?
  • Como é o traço (incompleto, transverso, oblíquo, espiral, cominutivo)?
  • Quantos fragmentos existem e há perda de segmento ósseo?

Com isso em mente, classifique mentalmente:

  • Fratura reconstruível – traços simples, com poucos fragmentos (incompletas, transversas, oblíquas curtas, espirais). Permitem reconstruir a anatomia e buscar estabilidade absoluta, com placas compressivas, parafusos de tração etc.

  • Fratura não reconstruível – cominutivas extensas, com vários fragmentos ou defeito segmentar. Aqui o objetivo é estabilidade relativa com técnicas em ponte (placas, fixador externo, haste bloqueada), aceitando formação de calo ósseo.


4. Defina o grau de urgência cirúrgica

Nem toda fratura precisa ir para o centro cirúrgico “agora”. Depois de estabilizar o paciente e avaliar o membro, classifique a necessidade de intervenção:

  • Emergência ortopédica: fraturas expostas moderadas a graves, fraturas articulares instáveis, fraturas de placa de crescimento com desvio importante, fraturas associadas a luxações graves ou comprometimento neurovascular.

  • Urgência ou eletivo próximo: fraturas fechadas reconstruíveis, bem analgesiadas, em pacientes estáveis; fraturas cominutivas que podem aguardar planejamento mais detalhado de osteossíntese.

5. Imobilização temporária e analgesia contínua

Enquanto a cirurgia definitiva não acontece, o objetivo é não piorar o que já está ruim. Imobilizações como tala, enfaixamento tipo Robert-Jones modificado ou fixador externo de resgate ajudam a reduzir dor e movimentação do foco de fratura.
Associe analgesia multimodal (opioide ± AINE quando não contraindicado ± bloqueios locorregionais). Reavalie rotineiramente dor, perfusão distal e edema de partes moles.

6. Pense sempre na cicatrização, não só na fixação

A escolha da técnica ortopédica deve equilibrar fatores mecânicos (estabilidade do traço, número de ossos envolvidos, perda óssea, tensão interfragmentar) e fatores biológicos (idade, comorbidades, trauma de partes moles, infecção, estado nutricional).
Em fraturas muito cominutivas ou com grande dano tecidual, técnicas minimamente invasivas ajudam a preservar o suprimento sanguíneo e reduzir complicações, mesmo que a consolidação ocorra com calo mais exuberante. Já em fraturas articulares, a prioridade é restaurar a superfície articular e garantir estabilidade absoluta, para minimizar o risco de artrose precoce.


Como usar essa dica clínica junto com o VetGuide

No dia a dia, você pode seguir este roteiro de 6 passos no plantão e, a partir dele, aprofundar cada decisão nos conteúdos do app:

  • em Trauma/Emergência, revisar choque, analgesia e politrauma;
  • em Fraturas (ortopedia), estudar opções de osteossíntese, fraturas expostas, articulares e fisárias;
  • em Classificação e Tipos de fraturas (imagem), treinar o olhar radiográfico para reconhecer rapidamente traços reconstruíveis ou não reconstruíveis.

Com prática, a avaliação rápida de fraturas deixa de ser apenas “ver o RX” e passa a ser uma decisão estruturada, que começa sempre pela vida do paciente e termina em um plano ortopédico mais seguro e previsível.

Texto por: Simone Freitas
Responsável técnica: Dra. Simone Freitas CRMV- BA 1771



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