Tromboembolismo Aórtico Felino: Quando a Coagulopatia se Manifesta como Trombose


O surgimento súbito de paralisia de membros posteriores em gatos é uma das emergências mais dramáticas e dolorosas da clínica de pequenos animais. Este caso clínico ilustra o manejo do Tromboembolismo Aórtico (TEA), uma condição onde o sistema de coagulação, em vez de falhar em estancar um sangramento, torna-se “exageradamente ativo”, resultando em consequências isquêmicas devastadoras.

1. Apresentação do Paciente e Queixa Principal.

O paciente, um felino adulto da raça Comum Europeia (SRD), foi admitido com um histórico de início hiperagudo. O responsável relatou que o animal “gritou de repente, caiu e parou de movimentar as patas traseiras”.

Na anamnese dirigida, notaram-se episódios prévios de respiração ofegante, sugerindo uma cardiopatia subjacente não diagnosticada. O animal não fazia uso de qualquer medicação prévia.

Imagem: Wikipedia 

2. Achados de Exame Físico: Os Sinais Patognomônicos

O exame físico é crucial para diferenciar o TEA de traumas medulares. Os achados incluíram:

  • Vocalização e Dor Extrema: O animal apresentava alta sensibilidade ao toque.
  • Paralisia Flácida: Ausência de movimentos voluntários nos membros pélvicos.
  • Alterações de Perfusão: Membros frios ao toque e ausência de pulso femoral.
  • Ausculta Cardíaca: Presença de sopro e ritmo de galope, reforçando a suspeita de Cardiomiopatia Hipertrófica (HCM).

3. Investigação Diagnóstica

A confirmação e o estadiamento do quadro dependeram de:

  • Ecocardiograma: Identificação de sinais de HCM e possível dilatação de átrio esquerdo.
  • Ultrassom Doppler: Visualização do “trombo em sela” (saddle thrombus) na bifurcação aórtica.
  • Bioquímica: Elevação de enzimas musculares (CK e AST) devido à isquemia muscular e avaliação da função renal.

4. Fisiopatologia: O Estado Hipercoagulável

Diferente das coagulopatias que levam à hemorragia, no TEA felino o problema é a estase sanguínea (geralmente no átrio esquerdo dilatado) somada à lesão endotelial. Isso gera um estado de hipercoagulabilidade que culmina na formação do trombo, que se desprende e obstrui o fluxo sanguíneo distal.

5. Conduta Terapêutica e Manejo Clínico.

O tratamento foi focado em três pilares principais:

A. Controle Analgésico (Prioridade Máxima)

O uso de opioides puros (morfina ou metadona) é indispensável. O manejo da dor é a primeira linha antes de qualquer outra intervenção, dada a intensidade do sofrimento isquêmico.

B. Terapia Antitrombótica e Suporte

  • Heparina: Utilizada para prevenir a expansão do trombo e evitar novos eventos.
  • Antiagregantes (Clopidogrel): Iniciados após a estabilização para prevenção secundária.
  • Suporte Cardiovascular: Oxigenoterapia e manejo de eventual edema pulmonar/insuficiência cardíaca congestiva.

C. Consideração de Trombólise

O uso de TPA (ativador do plasminogênio tecidual) pode ser discutido, mas exige cautela devido aos riscos de lesão por reperfusão e custos elevados.

6. Prognóstico e Lições Aprendidas

O prognóstico para o tromboembolismo aórtico permanece de reservado a grave. O sucesso depende do tempo de isquemia, da gravidade da doença cardíaca e da resposta precoce à analgesia e suporte.

Insight Clínico: Nem toda coagulopatia se manifesta com manchas roxas ou sangramentos. Entender que estados hipercoaguláveis são emergências hematológicas é o que define o sucesso no manejo do paciente cardiopata felino.

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Texto por: Simone Freitas
Responsável técnica: Dra. Simone Freitas CRMV- BA 1771

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