
Na serie de entrevistas o VetGuide apresenta uma profissional que tivemos a honra de conhecer durante nosso MBA em Gestão de Mercado Pet na USP/FMVZ. Larauê Motta é uma daquelas mentes que conseguem unir o coração do voluntariado à precisão da gestão e do comportamento animal. Com 12 anos de estrada e à frente da Vila Anima Pet – Daycare e hotel para cães, do Vila Anima Cat – hotel exclusivo para gatos e do Treinamento Entre Cães – profissionalização de monitores de creches caninas, ela traz uma visão que todo gestor pet precisa ouvir: a de que o manejo humanizado não é apenas "carinho", é ciência e diferencial competitivo.
Conheça, nesta entrevista, a nova era da conexão entre humanos e pets:
- Larauê, sua transição da publicidade para o comportamento animal é inspiradora. Como essa bagagem em comunicação te ajudou a “traduzir” o que os cães e gatos tentam nos dizer, mas que muitas vezes os responsáveis (tutores) não conseguem ler?
Larauê: Quando se fala em comunicação, temos que entender que ela só acontece com a emissão de uma mensagem e a recepção efetiva dessa mensagem! É uma via de mão dupla… e com os animais, é assim também… É como se eles falassem um idioma diferente do nosso e que precisamos estudar e adquirir fluência para que possamos entender as mensagens, interpretar os sinais e melhorar cada vez mais essa comunicação! Sem estudo, não existe essa conexão de forma clara para ambos os lados! - Você teve uma experiência marcante na África do Sul. O que o contato com a fauna selvagem e o voluntariado raiz te ensinaram sobre os pilares fundamentais do bem-estar animal que você aplica hoje no Vila Anima Pet, no Vila Anima Cat e no Treinamento Entre Cães?
Larauê: O maior ensinamento que tive lá foi o sentimento de pertencimento! Lá, enquanto exercia um trabalho voluntário, a remuneração que recebi foi me sentir parte daquilo de uma forma que dinheiro nenhum pagaria. Mergulhar nessa experiência trouxe clareza sobre a importância do respeito às espécies em sua essência e do quanto entender cada animal em sua particularidade, considerando suas necessidades individuais, considerando o ambiente em que vivem nos permite fazer melhores escolhas para o bem-estar! Hoje, lidando com pets, busco sempre me firmar no fato de que, mesmo dentro de nossas casas, eles continuam tendo suas necessidades enquanto espécies e é isso que os fazem especiais. O cuidado com a humanização é sempre relevante porque, a partir do momento que a gente se perde e esquece da essência do que são para sanar as nossas vontades e vaidades humanas, estamos colocando o bem-estar deles em segundo lugar... e isso é algo que não pode acontecer! - Muitas vezes, no dia a dia clínico, o veterinário foca na patologia e esquece o estado emocional do paciente. Como a visão de uma comportamentalista pode ajudar o clínico a reduzir o estresse do animal durante uma consulta?
Larauê: O animal não é feito “por partes”. Ele é um ser inteiro, conectado em todas as suas partes. Proteger apenas a saúde física sem considerar o impacto emocional de um tratamento, de um manejo ou do quanto o estado emocional pode contribuir para a melhora ou piora de um quadro clínico é essencial para chegar em um equilíbrio. Muitas vezes o abalo emocional contribui para queda de imunidade, que pode comprometer o sucesso de um tratamento patológico. Em determinadas situações, forçar alguns tipos de manejos, apressar manipulações, não fazer a leitura correta de sinais comunicativos do animal em consulta e entender alguns limites ou até mesmo usar determinadas contenções pode elevar o estresse de maneira desnecessária. Fazer uma avaliação de como agir em determinadas situações pode deixar o atendimento mais fácil, mais confortável e o tratamento posterior para o responsável (tutor), em casa, mais eficaz. - A parceria entre médicos veterinários e especialistas em comportamento nem sempre é fluida. Por que é vital para a saúde do animal que esses profissionais trabalhem em simbiose, e não em silos separados?
Larauê: Porque o animal é o mesmo. E tratar de sua saúde e bem-estar não pode ser uma competição ou uma rivalidade profissional. Olhar para o animal de forma completa e ponderar decisões levando em conta as conclusões veterinárias e comportamentais é a maneira mais honesta de lidar com os problemas, sejam eles comportamentais ou patológicos. Dentro da minha vivência, já lidei com situações em que alterações comportamentais ligaram alertas para doenças físicas ou tratamentos mal conduzidos geraram problemas comportamentais graves. Como tudo na vida, achar o equilíbrio é a chave do sucesso para a qualidade de vida do animal! - Você é pós-graduada em Gestão de Mercado Pet. Como você enxerga o impacto financeiro e a fidelização de clientes quando um empreendimento pet investe em treinamento de manejo fear-free (livre de medo) para sua equipe?
Larauê: Um responsável (tutor) SEMPRE vai reparar em como o animal dele foi tratado numa situação vulnerável. Com a equipe e o ambiente preparados para um manejo mais amigável, o animal se mostrará muito mais à vontade em situações de espera, de manipulações e de procedimentos. Em determinados casos, a consulta pode até levar mais tempo, mas terá um resultado final muito mais satisfatório, o que pode acarretar numa maior valorização do atendimento, agregando valor ao serviço, diminuindo os atendimentos em quantidade, mas entregando muito mais qualidade para o cliente/paciente. Além de diminuir também riscos de acidentes como fuga por medo, mordidas e ataques por defesa e facilidade no atendimento. - Para os profissionais que desejam alcançar a excelência no atendimento, quais competências "não veterinárias" você considera essenciais para garantir que os direitos de bem-estar do animal sejam respeitados do início ao fim do serviço?
Larauê: Acredito que para gerir qualquer negócio, é essencial ter lucro na atividade, porém, no mercado pet, a ambição pelo lucro pode ser um enorme tiro no pé. Óbvio que ele precisa existir, porém, no nosso mercado, isso não pode estar em prioridade número 1. Ter um propósito muito claro de respeito aos animais, daquele tipo que não é negociável, na minha opinião, é o que vai garantir uma excelência. Ter propósitos e valores extremamente rígidos e a clareza de que lidamos com vidas é maior que a profissão, é maior que a vaidade, é maior que a ambição e é maior que o ego humano. - Você está lançando um curso focado em comportamento animal. Como surgiu a ideia de criar o treinamento “Entre Cães” e o que te motivou a focar na formação de monitores de creches caninas?
Larauê: Há 6 anos à frente de uma creche canina, enfrentei inúmeras vezes o desafio de contratação de mão de obra. Percebi que o mercado pet atualmente é recheado de romantização, da ideia de que trabalhar com animais, principalmente com cães, é só alegrias e um trabalho leve. No meu nicho, lidando com cães em convívio direto, saudáveis, com sua energia e vitalidade super preservadas, muitos vivendo em espaços pequenos e com pouca oportunidade de socialização. Ao chegar na creche, eles são submetidos a estímulos e comportamentos que, se não forem conduzidos da maneira correta, com conhecimento e responsabilidade, o trabalho se torna arriscado e estressante. Diante da procura de tantos jovens “entrantes” nesse mercado, que buscam em creches o seu primeiro emprego ou veem uma possibilidade de mudar de área de atuação (pela não obrigatoriedade de cursar uma grade curricular para isso), mas fazendo isso sem nenhuma base técnica, decidi organizar toda a minha experiência em um treinamento de base para a formação e profissionalização de bons monitores que tenham capacidade de lidar bem e conscientemente com as principais situações encontradas nesse tipo de negócio, favorecendo assim que a qualidade do serviço ofertado pela empresa seja maior, que os cães sejam melhor compreendidos e também que os profissionais tenham mais capacidade de construírem carreiras sólidas nesse nicho.Apesar do foco em monitoria de cães para creches, o treinamento aborda as principais questões relacionadas à manejo comportamental, bem-estar e convívio em grupos e perfis comportamentais mais comuns e como lidar com eles, podendo agregar conhecimento também para profissionais de outros nichos, que tenham interesse na conduta comportamental! - Na sua visão, quais são as principais diferenças entre cuidar de um cão individualmente em casa ou no ambiente de clínica e trabalhar com vários grupos em um ambiente profissional?
Larauê: Quando se lida com um único cão por vez, o foco da interação é somente nesse indivíduo. Ao brincar, a escolha da brincadeira é para agradar esse animal, ao manipular para realizar qualquer tipo de manejo, a atenção tem um único foco. Com um animal, apenas, não há grandes questões em relação a disputa de recursos, à controle de instintos naturais, a riscos iminentes de brigas. Ao mudar o cenário para convivência em grupos, numa creche, onde a socialização, o respeito a regras de convivência e a riqueza de estímulos ganham protagonismo, o conhecimento comportamental é essencial para que os profissionais tenham condições de realizar o trabalho de forma segura, sabendo interpretar os sinais de cada indivíduo do grupo e avaliar a segurança de todos, assim como garantir que todos estejam tendo suas necessidades recreativas supridas. A tomada de decisão, nesse cenário, é frequente e precisa ser rápida, portanto, quanto mais o profissional for bem capacitado, melhor será a qualidade do serviço entregue e menores as chances de reforço ou criação de problemas comportamentais não existentes previamente, menos oportunidades de conflitos, mais chances de antecipação de tomada de decisão para melhores resultados, mais harmonia entre os animais atendidos e maior garantia de bem-estar para os grupos de cães. - Quais são os sinais comportamentais mais importantes que um monitor de creche precisa saber identificar logo no início do seu treinamento?
Larauê: Para qualquer profissional que trabalhe com cães, os principais sinais que precisam ser reconhecidos são os sinais de calma e as expressões faciais e corporais que comunicam emoções (como alegria, medo, desconfortos, iminente reatividade, ansiedade exacerbada). Sabendo interpretar esses sinais, o profissional tem condições de decidir que tipo de atitude tomar para seguir com a interação, seja ela dentro de uma creche ou em qualquer outro ramo como clínicas, banho e tosa, hospitais veterinários e passeios externos. - Você tem experiência com comportamento canino. Como isso influencia diretamente o conteúdo do curso e a forma como os monitores aprendem a trabalhar com grupos de cães?
Larauê: O conteúdo do curso aborda justamente a parte mais teórica da construção comportamental e das associações que os cães fazem durante a vida. Essa clareza permite que um monitor de creche entenda cada detalhe do dia a dia do trabalho e assim possa pensar fora da caixa, ter um olhar mais crítico em cada situação e saiba desenvolver, mais proativamente, maneiras de lidar com os desafios! O Entre Cães vem para ensinar os monitores a pensarem estrategicamente antes de agir fazendo com que a experiência prática tenha embasamento lógico e não apenas seja feita de tentativa e erro! - O treinamento aborda segurança no manejo de cães de diferentes perfis (ex.: filhotes, idosos, cães reativos)? Como você organiza esse tipo de conteúdo para os alunos?
Larauê: Sem dúvida! Cada perfil, personalidade, temperamento, idade, características naturais de raças, contam e refletem no comportamento dos indivíduos! Eu defendo com afinco a individualização do tratamento para cada aluno! No curso temos aulas específicas para falar sobre como lidar com cães muito enérgicos, com perfis mais medrosos e inseguros, entendemos os detalhes e diferença do que é agressividade e reatividade e como lidar com isso também da melhor maneira, avaliando quando é possível desenvolver cães com algum grau dessas características e quando a melhor decisão é encaminhar para que um adestrador ou um veterinário comportamentalista realize um tratamento e acompanhamento focado na questão principal antes de submetê-lo ao ambiente de socialização e estimulação! - Para jovens que querem entrar no mercado pet, quais habilidades você acredita serem essenciais(além do amor pelos animais) para que se tornem bons monitores?
Larauê:Amor pelos animais é requisito obrigatório para trabalhar em qualquer nicho pet. É condição inegociável! Encontramos nessa caminhada muitos jovens que se candidatam ao trabalho em creches motivados pelo fato de não requerer, em primeiro plano, uma formação acadêmica e, assim, poderem ter mais contato com cães antes de concluírem uma graduação, por exemplo. Há também a parcela de pessoas que veem nesse trabalho uma oportunidade de primeiro emprego, sem exigência de experiência prévia comprovada e com a ideia romântica de que é uma função fácil e não muito trabalhosa. O Entre Cães desmistifica esse olhar! Para ser um bom monitor (e, inclusive, crescer na profissão, podendo construir uma carreira sólida e bem remunerada na área) é preciso muita paciência, um olhar empático e sensível aos cães, uma inteligência emocional bem desenvolvida, afinal, trabalhamos com seres irracionais e que agem majoritariamente por instinto e podem ter atitudes inesperadas. Um perfil observador e um nível de curiosidade alto também ajudam demais na construção de um bom monitor. São características que fazem com que a pessoa tenha capacidade de evoluir muito rapidamente. - Quais são os principais erros ou desafios que os monitores iniciantes enfrentam no dia a dia das creches, e como o curso ajuda a superá-los?
Larauê: Acredito que o principal erro de principiante, na maioria das profissões, é o excesso de confiança. Mas no nosso mercado, isso pode se transformar em acidentes irreversíveis, conflitos entre cães e traumas psicológicos. Buscar conhecimento e conhecer as experiências de outros profissionais mais antigos no mercado ajuda a criar bagagem sólida para resolver os desafios de maneira mais segura, antecipando solução de situações antes que eles se tornem problemas reais e prevenindo o surgimento de problemas que possam ser evitados! - O curso oferece algum tipo de certificação ou suporte contínuo para quem conclui a formação? Como isso impacta a empregabilidade ou o desenvolvimento de carreira dos alunos?
Larauê:Sim, após a conclusão do curso, a própria plataforma disponibiliza o certificado de conclusão e ao se inscrever, o aluno tem acesso a um grupo de WhatsApp onde recebe suporte para dúvidas, apoio técnico, discussão de casos e faz parte de uma comunidade de pessoas com os mesmos objetivos profissionais! - Pensando no futuro da profissão, como você imagina que o papel de um monitor de creche canina deve evoluir nos próximos anos dentro do mercado pet?
Larauê:A relação das pessoas com seus cães está mudando em velocidade alta! A importância e o papel dos cães na família tomaram proporções que até poucos anos atrás não se imaginava. Esse movimento faz nascer uma demanda de uma rede de apoio que garanta os cuidados, a boa convivência e a manutenção do bem-estar pleno desses animais. Cada vez mais, os negócios enquadrados na categoria “pet service” vão ser mais consumidos. Com isso, a qualidade desses serviços também precisa ser fomentada e preservada de maneira que haja mão de obra qualificada, segura e profissionalizada dentro desse setor. Quem estudar, adquirir experiência e se destacar no mercado do comportamento canino, que ainda engatinha dentro do setor pet, com certeza terá lugar especial nas empresas prestadoras desse serviço.
Agradecemos à nossa convidada pela generosidade em compartilhar o seu trabalho, trajetória e conselhos com os leitores do VetGuide.
Nota : O curso mencionado pela Larauê é um divisor de águas para quem busca excelência. Conheça mais em: entrecaes. com. br
Entrevista feita por Dra. Simone Freitas
