Fluidoterapia em animais silvestres: doses, vias e “limites de segurança” por espécie


Na rotina com silvestres, o erro mais comum não é “esquecer de hidratar”: é hidratar sem meta, sem limite e sem monitorização, usando raciocínio de cão/gato. No VetGuide, a proposta é padronizar a tomada de decisão com parâmetros clínicos + doses/volumes por grupo + vias possíveis, para você agir rápido (inclusive offline) e com segurança.

1) Aves: Quando você precisa decidir manutenção + déficit + teto de bolus em segundos, sem superestimar volumes em pacientes de margem estreita.

Quando suspeitar desidratação/hipovolemia (pistas do app): olhos afundados, saliva mucoide em “fios”, redução de TPC pela veia basílica, redução urinária/uratos maiores, hematócrito >55% e aumento de PPT (proteínas plasmáticas totais).

Classificação prática:

  • Leve (5–7%): breve “prega” na pele (tarsometatarso/face/entre ombros), olhos ressecados, pele opaca.
  • Moderada (≈10%): prega persistente, hipotermia branda, secreções orais densas.
  • Grave (≈15%): fraqueza profunda, taquicardia e desmaio.

Regras de ouro:

  • Aquecer os fluidos: 38–39 °C (isso muda desfecho em ave pequena).
  • Se K ≤ 4 mEq/L, suplementar até 0,5 mEq/kg/h.
  • Em perdas de eletrólitos (ex.: diarreia/vômito), acrescentar 4–8% ao plano.

Taxa de manutenção (valores de referência do app):

  • Maioria das aves: 50 mL/kg/dia
  • Psitacídeos: 100 mL/kg/dia
  • Passeriformes: 250 mL/kg/dia

Como repor o déficit:

  • Dividir em 3–4 dias (≈25–33% ao dia).
  • Sugestão prática: Dia 1 = 50%, Dia 2 = 25%, Dia 3 = 25%.

Bolus IV: volumes máximos

  • Passeriformes: 0,5 mL
  • Pequenos periquitos: 1 mL
  • Psitacídeos médios: 2 mL
  • Papagaios: 6 mL
  • Araras: 12–14 mL

2) Répteis (Lagartos e Serpentes)

Em répteis, o risco não é só “faltar fluido”; é passar do limite e induzir complicações.

Como estimar desidratação:

  • Pode-se avaliar comparando hematócrito (Ht) e proteínas totais.
  • Como regra prática: alteração de 1% no Ht → considerar 10 mL/kg de reposição.
  • Limite de segurança: não exceder 25 mL/kg/24h (≈ 1,4 mL/kg/hora).

Solução hipotônica sugerida:
2 partes de dextrose 2,5% em solução salina 0,45% + 1 parte de Ringer com lactato.

Volumes diários por grupo:

  • Lagartos: 20–40 mL/kg/24h
  • Serpentes: 25–35 mL/kg/24h

3) Quelônios:

  • Banhos de imersão: para animais ainda ativos e com disposição para ingestão por via oral.
  • Oral ou tubo estomacal: solução eletrolítica diluída em 10–15% (desidratação leve a moderada).
  • Fluido “Ringer para répteis”: 1 parte Ringer com lactato + 1 parte dextrose 5% + 1 parte de NaCl (soro fisiológico).

Aplicação:

  • Reidratação: 0,8–1,2 mL/kg/h
  • Casos graves: 3–5 mL/kg/h (por no máximo 3 horas) por via IV
  • Alternativas citadas: IO e IC (intracoelômica) 10–25 mL/kg/24h
  • Manutenção: 5–10 mL/kg/24h

4) Roedores: manutenção + déficit por % e vias mais usadas

Observação: Considerar déficit (1% = 10 mL/kg) e então escolher a via conforme gravidade.

A manutenção estimada para pequenos roedores é 80–100 mL/kg/dia, refletindo metabolismo elevado e maiores perdas insensíveis.

Para déficit hídrico, 1% de desidratação equivale a 10 mL/kg além da manutenção e orienta reposição fracionada (Dia 1 e 2 com manutenção + 50% do déficit; Dia 3 manutenção, podendo estender para 72h se volumes estiverem altos).

As vias de acesso são: oral por gavagem (2–5 mL por dose), subcutânea (3–8 mL por dose; necessidades diárias 75–100 mL/kg), e, nos casos graves, intraóssea (tíbia) com bolus de 50–70 mL/kg para choque.

5) Coelhos (Lagomorfos):

  1. A via oral é útil em desidratação leve e cuidados domiciliares, mas é restrita a pequenos volumes, com máximo de 10 mL/kg por vez.
  2. Na via subcutânea, recomenda-se locais como nuca ou tórax lateral e define dose máxima de 30–60 mL, dividida em 2 ou mais locais, conforme o tamanho do coelho.
  3. Já a via intraperitoneal tem técnica detalhada e exige cautela em comorbidades respiratórias/cardiovasculares; o volume máximo é 20–30 mL de uma vez, dependendo do tamanho.
  4. Observação: em coelhos, a administração IV e I deve ser titulada com precisão, porque pequenos erros podem ser muito significativos em animais pequenos.

Para ter acesso rápido, inclusive offline, baixe nosso app Vetguide digite FLUIDOTERAPIA na busca geral ou acesse o menu de cada espécie:

  • Aves - Procedimento - fluidoterapia
  • Répteis - Procedimentos - fluidoterapia de lagartos e serpentes ou fluidoterapia de quelônios
  • Roedores - Manejo e Procedimentos - fluidoterapia e Clínica médica -Reposição de fluidos roedores
  • Coelhos - Manejo e Procedimentos - fluidoterapia.

 Texto por: Simone Freitas
Responsável técnica: Dra. Simone Freitas CRMV- BA 1771

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