Anafilaxia em um cão após a vacinação: Como o reconhecimento precoce salva vidas


A anafilaxia pós-vacinal é rara, porém potencialmente fatal. O reconhecimento imediato e a administração precoce de adrenalina são determinantes para o prognóstico.

Introdução

Eventos adversos pós-vacinação (EAPVs) graves são incomuns em cães, entretanto a anafilaxia representa uma das emergências médicas mais importantes relacionadas à imunização. Segundo as Diretrizes de Vacinação da WSAVA (2024), a maioria dos episódios ocorre na primeira hora após a vacinação, sendo aproximadamente metade iniciada nos primeiros cinco minutos após a aplicação. Embora sua incidência seja baixa, a evolução pode ser extremamente rápida, exigindo diagnóstico imediato e intervenção precoce.

Caso Clínico

Informações do paciente:

  • Golden Retriever
  • 18 meses
  • 30 kg
  • Histórico vacinal completo.

Foi submetido à vacinação anual com vacina múltipla.

 

Cinco minutos após a aplicação apresentou:

  • inquietação intensa;
  • prurido generalizado;
  • edema facial;
  • urticária;
  • sialorreia;
  • dois episódios de vômito;
  • mucosas congestas;
  • pulso fraco;
  • pressão arterial sistólica de 75 mmHg.

Discussão

Fisiopatologia

A anafilaxia corresponde a uma reação de hipersensibilidade sistêmica aguda desencadeada pela degranulação de mastócitos e basófilos. Embora classicamente mediada por IgE (hipersensibilidade tipo I), mecanismos não mediados por IgE também podem ocorrer.

A liberação maciça de mediadores inflamatórios, principalmente em:

  • histamina;
  • triptase;
  • leucotrienos;
  • prostaglandinas;
  • fator ativador plaquetário (PAF);
  • citocinas pró-inflamatórias,

provoca:

  • vasodilatação intensa;
  • aumento da permeabilidade vascular;
  • hipovolemia relativa;
  • redução do retorno venoso;
  • diminuição do débito cardíaco;
  • hipotensão;
  • broncoconstrição;
  • edema de vias aéreas.

Nos cães, um aspecto importante é que o órgão de choque predominante é o fígado, razão pela qual manifestações gastrointestinais (vômito, diarreia e dor abdominal) frequentemente antecedem o colapso cardiovascular.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico.

Deve ser suspeitado quando sinais sistêmicos surgem poucos minutos após a vacinação.

Achados compatíveis

✔ início agudo
✔ edema facial
✔ urticária
✔ prurido intenso
✔ vômitos
✔ diarreia
✔ colapso
✔ hipotensão
✔ mucosas congestas ou pálidas
✔ taquicardia
✔ pulso fraco
✔ broncoespasmo

Exames complementares

Os exames laboratoriais não devem retardar o tratamento.

Após estabilização podem ser realizados:

  • hemograma;
  • lactato;
  • eletrólitos;
  • gasometria;
  • glicemia;
  • coagulação;
  • ultrassonografia abdominal (quando indicada).

O principal diagnóstico diferencial inclui:

  • reação vasovagal;
  • síncope cardiogênica;
  • intoxicações;
  • edema angioneurótico não anafilático;
  • choque séptico;
  • choque hemorrágico.

Tratamento de Emergência

O tratamento deve ser iniciado imediatamente, sem aguardar exames complementares.

Checklist rápido

O que não pode falhar

  • Epinefrina é a droga de primeira linha e não deve ser atrasada por anti-histamínicos ou corticoides.
  • Oxigênio + acesso venoso + bolus de cristaloide guiado por resposta (cuidado em cardiopatas).
  • Closed-loop communication: líder define papéis (A/B/C/Registro/Tempo).
  • Monitorização contínua: ECG, SpO₂, pressão (preferir MAP), temperatura e glicemia quando possível.

Monitorização

Durante as primeiras horas monitorar continuamente:
✔ frequência cardíaca
✔ pressão arterial
✔ frequência respiratória
✔ SpO₂
✔ temperatura
✔ ECG
✔ débito urinário
✔ lactato
✔ estado mental

A melhora clínica costuma ocorrer rapidamente após administração adequada de adrenalina.

Pacientes graves devem permanecer internados por pelo menos 24 horas, devido ao risco de reações bifásicas.

Critérios de Alta

A alta pode ser considerada quando o paciente apresentar:

  • estabilidade hemodinâmica por pelo menos 12–24 horas;
  • ausência de vômitos ou diarreia;
  • pressão arterial normal sem suporte vasopressor;
  • ausência de edema facial progressivo;
  • frequência cardíaca e respiratória compatíveis com a espécie;
  • ingestão voluntária de alimento e água.

O tutor deve ser orientado a retornar imediatamente caso ocorram:

  • nova urticária;
  • vômitos;
  • edema facial;
  • letargia intensa;
  • dispneia.

Nota Clínica

A epinefrina é o único medicamento capaz de reverter rapidamente a vasodilatação, o broncoespasmo e a hipotensão da anafilaxia. Anti-histamínicos e corticosteroides são considerados terapias adjuvantes e nunca devem atrasar sua administração.

O que aprendemos com este caso?

  • A maioria das anafilaxias ocorre poucos minutos após a vacinação.
  • O diagnóstico é clínico e o tratamento deve ser imediato.
  • Epinefrina intramuscular continua sendo a terapia de primeira linha.
  • Todo serviço que realiza vacinação deve possuir protocolo escrito para atendimento da anafilaxia, medicamentos de emergência prontamente disponíveis e equipe treinada.

Texto por: Simone Freitas
Responsável técnica: Dra. Simone Freitas CRMV- BA 1771

Referências
Protocolos de emergência veterinária. Intoxicações e Eventos transversais. Vol 3. Ed. VetGuide Ltda. Ed. 1, Curitiba- PR, 2026.
DAY, M. J. et al. WSAVA Guidelines for the Vaccination of Dogs and Cats. Journal of Small Animal Practice, 2024.

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