Prontuário transcrito por IA: Vantagens e riscos na medicina veterinária


Durante o lançamento do VEHR na PET VET 2026, um recurso tecnológico despertou especial interesse entre profissionais e potenciais clientes:

a possibilidade de transformar a conversa realizada durante a consulta em um prontuário estruturado.

A chamada transcrição clínica por inteligência artificial — ou ambient AI scribe — já vem sendo utilizada e estudada na medicina humana.

O conceito é relativamente simples.

Com conhecimento e consentimento das pessoas envolvidas, a conversa clínica é captada. A tecnologia reconhece a fala e utiliza inteligência artificial para organizar as informações relevantes em uma proposta de registro clínico.

Em vez de passar parte significativa da consulta digitando, o profissional poderia dedicar maior atenção ao paciente e ao tutor e, posteriormente, revisar, corrigir, complementar e validar o documento produzido.

Parece uma solução ideal.

Mas, em saúde, a discussão não pode terminar na economia de tempo.

Prontuário transcrito por IA: onde estão as vantagens?

1. Tempo

Esta provavelmente é a vantagem mais evidente.

Documentar adequadamente uma consulta exige tempo. Quando parte desse processo é automatizada, existe potencial para reduzir a carga administrativa associada ao preenchimento do prontuário.

O benefício não é apenas terminar o trabalho mais rapidamente.

Há uma possibilidade ainda mais interessante: devolver tempo à relação entre profissional, paciente e tutor.

Com menor necessidade de alternar constantemente a atenção entre a conversa e a tela do computador, o médico-veterinário pode concentrar-se mais na anamnese, no exame do animal e na comunicação.

2. Maior riqueza do registro

Durante uma consulta, diversas informações são fornecidas em poucos minutos.

Datas, medicamentos utilizados anteriormente, evolução dos sinais clínicos, alimentação, comportamento, resposta aos tratamentos e observações feitas pelo tutor podem se perder quando o profissional precisa simultaneamente ouvir, raciocinar e digitar.

A transcrição pode funcionar como uma etapa intermediária capaz de recuperar informações importantes para posterior organização no prontuário.

3. Padronização

Sistemas capazes de transformar uma conversa em campos estruturados podem favorecer registros mais organizados e consistentes.

Isso pode melhorar a continuidade do atendimento, especialmente em hospitais nos quais diferentes profissionais acompanham o mesmo paciente.

Mas essas vantagens precisam ser analisadas junto aos riscos.

O outro lado da transcrição: quatro questões que a Medicina Veterinária precisa discutir

Confidencialidade

Uma consulta contém informações que pertencem ao contexto da relação profissional entre médico-veterinário e cliente.

Quando essa conversa passa a ser gravada, transcrita ou processada por inteligência artificial, surgem novas perguntas:

  • Onde o áudio é processado?
  • Ele é armazenado?
  • Por quanto tempo?
  • Quem pode acessá-lo?
  • A transcrição permanece armazenada depois que o prontuário é produzido?
  • Os dados são utilizados para treinamento de modelos de IA?
  • Existe processamento por empresas terceirizadas?

A adoção responsável dessa tecnologia exige respostas claras para essas questões e precisa estar alinhada às regras de proteção de dados aplicáveis.

O tutor também precisa saber quando a consulta está sendo gravada ou processada e qual será a finalidade daquele registro.

Tecnologia silenciosa não pode significar tecnologia invisível para o cliente.

Erros de transcrição

A segunda questão é clínica.

Sistemas de transcrição não são infalíveis.

Ruído ambiental, conversas simultâneas, diferenças de pronúncia, nomes de medicamentos, doses, unidades, abreviações e terminologia médica podem resultar em erros.

Existe ainda uma diferença fundamental entre transcrever e interpretar.

Um sistema generativo pode omitir uma informação mencionada durante a consulta, atribuir uma fala à pessoa errada, reorganizar inadequadamente uma informação ou até produzir conteúdo que não estava presente na conversa.

Na saúde, uma pequena diferença pode ser relevante:

0,5 mg não é 5 mg.

“Sem vômito” é diferente de “com vômito”.
“Suspeita de doença renal” é diferente de “diagnóstico de doença renal”.

Por isso, um prontuário produzido por IA nunca deveria ser automaticamente tratado como documento clínico definitivo sem revisão.

Transparência jurídica

A terceira questão talvez seja uma das mais importantes.

Quando existe inteligência artificial entre a conversa e o documento final, é necessário saber quem produziu o quê.

  • Qual informação foi captada originalmente?
  • O que foi transcrito?
  • O que foi resumido pela IA?
  • O médico-veterinário realizou alterações?
  • Qual foi a versão efetivamente validada?
  • Quando ocorreu essa validação?

Essa rastreabilidade pode se tornar extremamente relevante diante de auditorias, divergências ou questionamentos jurídicos.

É justamente aqui que o conceito de IA auditável ganha importância.

Não basta saber que inteligência artificial foi utilizada. É necessário construir mecanismos capazes de registrar sua participação no processo e preservar a responsabilidade humana sobre o documento final.

Responsabilidade profissional

Existe ainda uma fronteira que não deve ser ultrapassada.

A IA pode redigir.
Pode estruturar.
Pode sugerir.
Pode recuperar informações.

Mas quem valida o prontuário é o médico-veterinário.

A utilização de uma ferramenta automatizada não transfere automaticamente a responsabilidade pelo conteúdo registrado.

Por isso, a tecnologia precisa ser incorporada ao fluxo clínico como uma etapa anterior à validação profissional — e não como substituta dela.

Prontuário transcrito: vantagem ou risco?

A resposta depende menos da existência da tecnologia e mais de como ela é implementada.


O que a Medicina Humana já está aprendendo

A experiência da Medicina Humana oferece um importante sinal para a Medicina Veterinária.

Os chamados ambient AI scribes vêm demonstrando potencial para reduzir a carga associada à documentação clínica e melhorar a eficiência do trabalho médico.

Ao mesmo tempo, pesquisas recentes identificaram erros de omissão, inclusão de informações inadequadas e eventuais conteúdos incorretos produzidos pela IA.

Isso levou a uma conclusão importante: a automação da documentação não elimina a necessidade de revisão clínica — ela torna essa revisão ainda mais importante.

Outro ponto crescente de discussão é a governança dos dados.

Uma consulta transcrita pode produzir diferentes registros: áudio original, transcrição integral, resumo gerado pela IA, versões intermediárias e prontuário final.

Definir quais desses elementos serão armazenados, por quanto tempo, quem poderá acessá-los e quais farão efetivamente parte do prontuário é uma decisão que precisa ser tomada antes da implementação da tecnologia.

Antes de adotar um prontuário transcrito, a clínica deveria responder algumas perguntas

A inovação precisa vir acompanhada de governança.

Antes de implementar esse tipo de recurso, clínicas e hospitais veterinários deveriam estabelecer protocolos claros sobre:

  • consentimento do cliente para gravação e processamento da consulta;
  • política de armazenamento ou descarte do áudio;
  • proteção e controle de acesso aos dados;
  • responsabilidade pela revisão do documento;
  • identificação das informações produzidas ou modificadas pela IA;
  • registro das alterações realizadas pelo profissional;
  • validação final pelo médico-veterinário;
  • procedimentos para correção de erros;
  • política de retenção dos diferentes registros digitais;
  • possibilidade de auditoria das ações realizadas pela inteligência artificial.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas:

“A IA consegue escrever meu prontuário?”

Talvez a pergunta mais importante seja:

“Eu consigo saber como esse prontuário foi produzido, revisar o que a IA fez e assumir conscientemente a responsabilidade pelo documento que estou validando?”

 

   Texto por: Simone Freitas
Responsável técnica: Dra. Simone Freitas CRMV- BA 1771


Referências

OHDE, J. W. et al. Barriers and opportunities of scaling ambient AI scribes for clinical documentation across diverse healthcare settings. npj Digital Medicine, 2026.

Accuracy and Safety of AI-Enabled Scribe Technology: Instrument Validation Study. Journal of Medical Internet Research, v. 27, e64993, 2025.

Quality of Clinical Notes Created by Ambient Listening Generative AI: Pragmatic Prospective Pilot Study. 2026.

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